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Como o silêncio pode te ajudar a se tornar mais criativo

13 de setembro de 2019
silencio criatividade

Voltei ontem de um retiro de meditação onde passei sete dias em silêncio promovido pelo Cebb Darmata (Centro de Estudos Budistas Bodisatva) em Timbaúba, zona rural de Pernambuco, juntamente com outras 50 pesssoas.

Sempre quis fazer um retiro de silêncio depois de ter lido vários relatos de pessoas que se transformaram com a experiência, a exemplo da cantora Duda Beat, que descobriu que queria ser compositora assim que saiu de um retiro de silêncio e do escritor Yuval Noah Harari que afirma no último capítulo de seu livro “21 licões para o século XXI” que a meditação o impactou completamente após a ida a um retiro de Vipassana e que sem ela jamais teria escrito suas obras mais famosas (ele inclusive faz um retiro de silêncio de 30 dias todos os anos).

Já havia feitos outros retiros pequenos de 3 dias promovidos pelo Cebb Darmata, mas apesar de contemplarmos bastante a meditação e seus benefícios, o foco não era a prática do silêncio e o uso do celular era permitido.

Nesse retiro, conduzido pelo tutor Bruno Davanzo, aluno do Lama Padma Samten e tutor do Cebb Sukhavati, os celulares foram recolhidos no primeiro dia e qualquer elemento que injetasse informação externa na mente também não era permitido como livros, revistas, jornais e música.

A nossa rotina começava cedo: às 5:15 o sino tocava nos convidando para uma meditação silenciosa no templo das 5:30 às 6:00. Quem desejasse, poderia dormir mais um pouco. Das 6:00 às 7:00 acontecia o puja (cânticos de mantras dedicados ao darma – ensinamentos do buda) que também são uma espécie de prática meditativa.

Das 7:00 às 7:45 acontecia o café-da-manhã e das 7:45 às 9:00 iniciavam-se as mandalas que são atividades de manutenção do espaço. Todos tinham seus nomes em planilhas indicando exatamente o que deveriam fazer: limpar o banheiro, varrer o dormitório, aspirar o templo, ajudar no preparo dos alimentos na cozinha.

Das 09:00 às 12:00 iniciava-se a meditação no templo conduzida em blocos de 45mim-15min. A cada 45min parávamos para alongar, ir no banheiro e fazer o kinhin (exercício de caminhada em fileira para exercitar a atenção plena). Nesses 45 min havia um toque seco a cada 15min onde poderíamos mudar de posição caso houvesse desconforto, já que a indicação era que meditássemos sentados em lótus. Caso houvesse muita dor, poderíamos nos sentar na cadeira e em último caso, deitar-se em savassana.

Das 12:00 às 12:45 acontecia o almoço e quem estava nas mandalas da tarde naquele dia deveria trabalhar até às 14:00, quem não, poderia descansar ou caminhar na mata. Das 14:00 às 17:00 se repetia o ciclo da manhã e às 17:00 havia uma aula de yoga. O jantar acontecia das 18:00 às 18:45 e o puja acontecia novamente às 19:00. Às 20:00 eram dadas as instruções de prática do dia seguinte e abria-se um bloco de perguntas e respostas com o tutor até às 22:00hs.

Cebb Darmata em Timbaúba

Primeiro Dia

Chegada e acolhimento. Cheguei às 17:00 depois de enfrentar muita chuva na estrada, me aventurar por 6km na estradinha de lama que leva ao Darmata e cair em dois buracos que soltaram o protetor de kart do meu carro. Já cheguei lá bastante tensa e logo recebi a notícia de outros retirantes que após o jantar os celulares seriam recolhidos. Algumas pessoas não sabiam e ficaram um pouco desesperadas (rsrsrsrs), todos queriam informar seus familiares que ficariam desconectados pelos próximos 6 dias.

Após o jantar os celulares foram etiquetados e guardados numa caixa e se iniciou o nobre silêncio. Ninguém se olhava nos olhos e apenas o som dos bichos da mata eram audíveis. Tive uma das piores noites de sono da minha vida: a chuva torrencial perturbava meus ouvidos e me fazia pensar fixamente como eu sairia dali atravessando a lama da estrada. Fora isso, o quarto, que não tem esquadrias nas janelas para permitir que você abrace a luz da manhã, era extremamente úmido, meu colchão era uma cama de gelo. Já havia ido outras vezes ao Darmata em épocas de chuva e definitivamente o clima não era assim. Pensei em sair do dormitório várias vezes para respirar ar puro, mas lá fora as luzes estavam todas apagadas e não havia como circular. Dormi menos de 5 horas e foi um sono perturbador onde eu me sentia presa numa jaula.

Segundo Dia

Acordei quebrada e não parava de chover um minuto sequer. Para ir do dormitório ao banheiro, uma mera distância de 8m, precisávamos de guarda-chuva. Eu não tinha levado nenhum, então sempre voltava molhada dos meus percursos. Estava fixada em saber a previsão do tempo dos próximos dias, mas não podia usar o celular e não podia perguntar a ninguém sobre isso.

Iniciados os ciclos de meditação, começaram as dores, muito bem alertadas por Bruno na introdução: “Vocês chegarão ao poço do fundo da dor e só voltarão do quarto para o quinto dia”. Os meus pensamentos iam da chuva para a dor na lombar e no meio das costas. A yoga ajudou a aliviar, mas ainda assim eram muito intensas até pra mim, que pratico balé e musculação diariamente. Tive uma péssima noite de sono, novamente com a camada gelada e dessa vez, o adicional da dor nas costas.

Terceiro Dia

Comecei a ficar muito agoniada. Pensei em ir embora várias vezes e só não fui porque meu carro atolaria na lama. Minha cabeça oscilava entre chuva, dor e a falta de notícias do mundo exterior.

Durante a meditação, haviam blocos em que estava super concentrada e focada na minha respiração, em outros blocos estava agitada e me movendo demais. Havia oscilação de pensamentos e todos tipo de bobagem vinha à minha mente. Passei alguns blocos do lado de fora andando no jardim. Comecei a ter dores de cabeça intensas por conta da falta de café, que é proibido durante o retiro (os alimentos na cozinha também não podem ser temperados com cebola, alho e pimenta, que são estimulantes, e toda a alimentação é estritamente vegetariana).

Achei um comprimido de Dorflex perdido na minha bolsa e apesar de não ser recomendado pelo tutor por conter cafeína, eu acabei tomando assim mesmo o que me aliviou um pouco.

Acabei conseguindo uma manta com uma das organizadoras e consegui deixar minha cama mais quente, mas meu corpo estava acabado. Não havia posição que eu não sentisse dores, passei a noite me remexendo na cama e novamente, devo ter dormido de 4 a 5 horas.

Práticas Meditativas no Templo

Quarto Dia

Meu corpo chegou no ápice da dor, doíam partes de mim que eu nem sabia que existiam. Não consegui meditar em lótus em nenhum dos blocos e passei as práticas sentadas na cadeira ou deitada. Consegui um comprimido de dipirona com uma das organizadoras e massageei as costas deitada numa bola de tênis, técnica ensinada por Bruno na prática da noite. Finalmente houve uma melhora leve na dor e eu tive um surto de felicidade. Pensava em como o Buda conseguiu se iluminar passando 49 dias sentado e como a monja Jetsunma Tenzim Palmo passou 12 anos numa caverna sem deitar uma única vez…

Durante à tarde, relaxada, consegui elevar muito a minha prática meditativa. Finalmente comecei a me sentir presente e observar a manifestação do pensamento na minha mente, tudo era criado e se eu quisesse, alimentava aquele pensamento, entrando numa bolha ou não. Medito há alguns anos e a experiência foi muito diferente dessa vez, mérito das instruções de Bruno.

O celular não me fazia falta, não parecia sequer que eu já tinha comprado um celular na vida. A chuva também deu uma trégua o que me ajudou a ficar menos estressada. À noite dormi bem melhor e apesar de ainda sentir dores, consegui relaxar na cama.

Quinto Dia

Meu olhar magicamente era outro. Caminhei pela mata de manhã e observei a natureza de uma maneira completamente diferente. Passei um tempão olhando cada detalhe das plantas: dos polens nas flores, às gotas de orvalho nas folhas, às plantas secas mortas que virariam alimento para a terra, das folhas novas que nasciam, dos frutos que brotavam das bananeiras e mamoeiros. As cores eram vibrantes, a luz do sol era brilhosa e luminosa.

Observei os animais: saguis, borboletas, gafanhotos. Eram tão lindos e perfeitos, parte de uma construção tão esplêndida da natureza. Como era incrível estar viva. Eu era parte daquilo tudo.

Durante as refeições, notei que comecei a comer mais devagar, sentindo o gosto dos alimentos. Percebi como eu me alimentava rápido no dia-a-dia, mal percebia a simplicidade do sabor incrível de um simples feijão temperado…identifiquei todos os temperos usados no preparo.

Meditei em lótus o dia inteiro. Meu corpo tinha se acostumado ou à posição ou aos alongamentos intensos ou tinha simplesmente percebido que a dor era obra da mente e não do corpo. Contemplei a minha mente, o pensamento ia e voltava e eu conseguia observá-lo com uma energia diferente. Em muitos minutos, parecia que eu não estava ali, mas em outro lugar, em outro espaço-tempo conectada a uma rede que era muito maior que eu. Muitas vezes me veio medo ao contemplar o vazio, me senti muito sozinha; em outros momentos, vontade de chorar. Tive poucos momentos de desatenção e ansiedade.

Os relatos na prática da noite eram mágicos e você começava a ter um pouco de noção do que as pessoas estavam passando, como as dores intensas no corpo. Era estranho passar o dia ao lado dessas pessoas e nem saber o nome delas ou o que estavam sentindo com a prática. Eles estavam sentindo o mesmo que eu?

Sexto Dia

Comecei a ficar aflita novamente porque voltou a chover intensamente, mas aquela aflição já não me perturbava como antes, não era intensa, constante e dura. Ao mesmo tempo comecei a pensar que no dia seguinte acabava, era um misto de tristeza e alívio. Comecei a temer perder aquele estado de paz voltando ao mundo exterior, mas ao mesmo tempo meu corpo precisava de um bom banho quente e de um osteopata.

A meditação nesse dia veio leve e calma, era natural, como se conectar a uma rede de wi-fi. Nunca saberei experienciar em palavras. Eu me sentia muito leve, feliz, viva, criativa, todo tipo de ideia e coisas boas e incríveis me vinham à mente.

Sétimo Dia

Fizemos uma prática final e encerramos com relatos, todos indescritíveis. Alguns não queriam ir embora, outros superaram traumas, contemplaram sofrimentos sobre outras perspectivas, conseguiram mudar suas paisagens e identidades, outros não viam a hora de voltar pra casa.

Os celulares foram devolvidos e era muito estranho ter notícias do mundo. As confusões sobre política que tanto me perturbavam diariamente nem me atingiam mais. Abri um grupo de whatsapp e vi uma super treta por conta de uma declaração do presidente e olhei aquilo achando uma perda de tempo de ser discutida, poderia mudar o cenário de outras formas.

Ao mesmo tempo, tudo era igual, ninguém morreu, nenhuma notícia bombástica, era só um monte de informação, a maioria inútil.

Quando cheguei em casa estava meio aérea, como se eu tivesse voltado de um vôo muito longo. As luzes da cidade eram agoniantes e o som de pessoas conversando e música alta ao longe eram muito estranhas. Fui preparar meu jantar e não tinha a menor vontade de comer porcaria (como eu achava que teria após a saída), só queria saborear uma fruta gostos e colorida.

Olhei o desenho que fiz na parede do meu quarto há um tempo atrás e ele parecia que se mexia de outro modo, as cores que eu mesmo escolhi eram tão vivas, como eu não tinha notado antes? As pétalas se expandiam e tive vontade de tocas nas paredes (juro que eu não consumi nada ilícito nesse retiro…. rsrsrsrs).

Ilustração que eu fiz no meu quarto

Acordei no dia seguinte tentando retomar meu trabalho (no caso hoje). Abri a caixa de emails, cheia de mensagens, respondi as mais importantes e apaguei o resto. Me deu uma vontade enorme de desenhar, pintar, escrever (esse texto inclusive).

Fui consertar o meu carro e observei a cidade com outros olhos. Como o homem criava aquilo? Era bonito, era feio? O sol batia na calçada e fazia um desenho que eu nunca tinha reparado. As pessoas eram tão legais, como o ser humano é incrível. Não tive vontade ouvir Spotify, ver TV e nem de ir à academia e fiquei agoniada só de pensar no barulho e nas luzes de tantos estímulos.

Notei que comecei a fazer tudo mais devagar, sou extremamente ansiosa e faço tudo correndo na tentativa de sempre ganhar tempo, uma busca que só me deixa mais e mais agitada. Do ato de forrar à cama a trocar de roupa, os movimentos eram sutis e leves. Quanto tempo isso vai durar? Espero que pra sempre.

Entrei no instagram, que é um aplicativo que consumia horas do meu tempo diário já que trabalho muito com imagem, e já não fiquei presa ali dentro como antes. Vi apenas o que me interessava e as imagens que me captavam pareciam muito mais bonitas do que antes. Celular pode ser um funil perpétuo, uma armadilha que te impede de contemplar coisas tão incríveis que estão foras de uma tela brilhosa.

A minha conclusão é que um retiro do silêncio não é fácil, não é pra todo mundo, mas é algo que todos deveriam tentar fazer uma vez na vida. O tutor recomendou mantermos a prática de meditação de 45min diariamente e repetir o retiro uma vez ao ano para não perder a conexão.

Não sei se faria outro por conta das extremas dores que senti, mas começarei a observar meu comportamento nos próximos dias, pois ainda estou processando tudo o que vivi, vamos ver como isso vai se manter e como irei me comportar.

Me considero muito criativa, até porque trabalho com áreas que me exigem isso, mas aprendi no retiro que para despertar ainda mais a minha capacidade imaginativa e aprender a pensar fora da caixa, nada é mais importante do que deixar de lado as preocupações mundanas e focar no poder da presença. Respirar, sentir o corpo, respeitá-lo, ver novas paisagens sem precisar sair do lugar. Tudo isso está dentro de você, na prática da atenção plena da presença meditativa, de observar o ar sair e entrar dos pulmões e isso só precisa ser despertado. O mundo está dentro de nós e ele é indescritivelmente belo e vasto, basta silenciar para observar….:)

“Não existe nada fora da mente”

Lama Dordje

Instituições que promovem retiros do silêncio no Brasil:

Inkiri

Dhamma

Templo Zulai

Sri Prem Baba

Monja Coen

Uniluz

Cebb

Brahma Kumaris